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segunda-feira, junho 28, 2004


Não, não é Lady Godiva. É a Eduarda no seu corcel, troteando e chapinhando na praia da Quinta do Lago. No próximo post explico tudo. 

domingo, junho 27, 2004

Porque o Elmano não ata nem desata e o SULturas em versão pasquim nunca mais sai, decidi antecipar uma página da próxima edição.

UM CONTRIBUTO PARA UMA NOVÍSSIMA VOGA MINIMAL
PARA UMA REVOLUÇÃO LITERÁRIA PARA NADA


PRAIA

As ondas em reverberação
Espalham o crude pelo areal


NÃO SEI

Achar-me-ei


QUADRO

Corvos voam
Sobre uma paisagem de Van Gogh


MUDANÇA

A miséria vai até onde formos
Não tanto por nos acompanhar
Mais por já lá estar


SEM TITULO

O poema dilacerou-se
(Sobraram apenas letras soltas)


PROFUNDIDADE

Muito acima de vocês?
Não. Estão na terra.
Eu, no Inferno.


MOTIVO

Procuro o momento luminoso
Que justifique o ter existido


Mário Bacelar

quarta-feira, junho 23, 2004


eu com quatro meses dentro de minha mãe ao lado de meu pai no pedestal improvisado ao fundo no meio da fotografia no ano da graça do senhor de 1961 em pleno abril

terça-feira, junho 22, 2004

Mais uma de 1999...

AGUARDENTE DE FIGO


Meu caro editor arquitecto travestido: quando me referiu que certos Kuriosos estavam singrando sem precisarem de trabalhar para o tio, esqueceu-se de avaliar os valores que a kuriosidade desconhece e que me correm naturalmente na seiva da alma, coincidindo com algumas práticas dos entes familiares.
Sou conservador em relação a tudo o que de melhor foi feito pelos nossos antepassados que souberam ser empenhados. Renego por outro lado, cargas históricas ideológicas face ao acontecer renovado e irreversível da condição humana. Repare: esteticamente sou absolutista, filosoficamente mutante, economicamente liberal, politicamente anarquista e moralmente magnânimo. Foi a fórmula mais pujante e vizinha da perfeição que consegui adoptar. Deus está um passo à minha frente porque consegue ser omnipresente. Já referi, em andanças escritas anteriores, que não sou ambicioso materialmente. Preciso somente de ter cinquenta contos num dia ou quatrocentos escudos no dia seguinte, mas quando preciso deles é bom que apareçam sem dificuldade. Ou por outras palavras; basta-me ser, cada vez mais. Acumular em mim tudo o que o Universo tenha para me dar ou envolver, e vir a ser tudo o que a minha liberdade implique.
Tal como já alguém disse: adoráveis são os seres que sabem ter direitos. Mas é árdua a tarefa de nos tornarmos superiores. A civilização e as suas mecânicas são para mim estranhas imposições, que tenho de suportar ou encarar como problemas contornáveis ou utilitários. Depois tenho a solidão. E ninguém está convidado para esse castelo sem autorização expressa. Aí, já concebi fórmulas para sociedades perfeitas: a teoria é uma coisa linda e patética, bem sei, mas não a consigo suplantar na acção. Sou naturalmente desajeitado quando se trata de agir ou tomar atitudes.
Um forasteiro no Algarve é um ser suspeito e sob fortes olhares críticos - tal facto chega a dar tonturas, e não fosse a minha vertente inata de cidadão do Mundo (isso mesmo, ó provinciais-lusitanos!) e estaria condenado a ganhar musgo psíquico ou raízes de comportamento na miséria mental do social vigente. É claro que também me poderia filiar nos laranjas, ou rosas, ou verdes, mas não faz o meu género. Não sei pactuar com coisa alguma, e criar os roxos dá uma enorme trabalheira. Paciência ainda sei ter, e tratar de mim já é uma nobre função. Em termos gerais: viva também o medronho!




segunda-feira, junho 21, 2004

SUBÚRBIOS DA RAZÃO

RESIDO INCONSTANTE
NO RESÍDUO ANGUSTIANTE
DA INTELIGIBILIDADE MANCHADA

SOU FRACAMENTE HUMANO
SOU FRANCAMENTE ESTRANHO

NO LODO
E
NO TODO

domingo, junho 20, 2004

Desculpem-me mas meti água acima do artelho. O meu filho garantiu-me que a Rússia tinha ganho por dois zero. Delirei portanto. As minhas desculpas pela patacoada.

Citando António Andróide da Nação:
À grande alma lusitana divulgada em colóquios parisienses, com marco paulo e linda de suza
AO COZIDO À PORTUGUESA, COM TODOS OS ENCHIDOS E PÉ DE FUTEBOLISTA...

Se tivermos de ser grandes por via dos pézinhos, seja!

quinta-feira, junho 17, 2004

E outra para o repositório...

VALIUM

Vocês queriam enlouquecer-me. Mas eu não deixo. Terei, isso sim, a agradecer-vos a fanfarra constante que sempre me proporcionaram. A “Grande Única Ópera do Mundo em Sintonia com o Universo” já a ouço há imenso tempo sem que saibam que ela existe. Coitados. Fica então adiada, para nunca mais, a sua audição integral. Aparte isso também vos convinha o meu cadáver sereno e bem arrumado. Tal vai, no entanto, demorar. Sou graniticamente teimoso. Serei talvez um vampiro da realidade. Mas deixem-me que vos diga que o sangue inconsciente que vos roubo é de péssima qualidade. Quase não chega para me oxigenar. Tirando um ou outro pormenor intemporal de laivos de humanidades, o resto é fétido, ancestral, nada original e pouco sincero. Em domínio de magia social já nada têm para me dar. Só surpresas pela negativa. Vós quereis triunfadores ou fracassados. Eu quero diferença apenas e não vou a jogo porque já ganhei. Ganhei de maneira agoniada e solitária. Ganhei-me a mim simplesmente. E não gosto muito do modelo da taça, mas essa questão é só minha. Quanto a vós, de mim já tiveram demais. Safa, que a fama a peso, sem proveito líquido, é insustentável. E de que serve esse esterco do orgulho em ser gente? Justificação para as imperfeições? Grandes gargalhadas irão dar os nossos mais esclarecidos sucessores num futuro não muito longínquo. Tenho a noção exacta de que a grandeza humana só será efectiva quando ultrapassar o "ser-se humano". E não me venhas com cavernas, ó Saramago. Todos os dias são bons para começar a foder tudo de maneira apaixonada; para quem assim o desejar. Basta o que basta. Atravessamos os tempos de realizações falsamente grandiosas à medida da nossa pequenez. Resta-nos a real e quotidiana náusea de sermos transitórios e efémeros. A Ciência continua a ser lenta e mal domesticada. As tecnologias alimentam apenas a generalizada lobotomia. Nunca tantos fizeram tanta merda em tão pouco tempo, em nome do futuro. Mas qual futuro? A Democracia já fede e Haider é um pequeno aprendiz de cartilha pútrida e caducada. Terão de se inventar inevitavelmente novos modelos. Haverá naturalmente uma Nova Ordem. Mas tudo isso já não nos compete, é do forum dos monstros dos nossos netos. Abençoados. Assistam quietos, por agora, à decadência da coisa ou matem-se se pensam que seria bom transformar tudo isto. O problema é que já ninguém controla o “isto”. O Poder é actualmente tão vago, apesar de esmagador, mesmo nas formas subreptícias, que resta a afirmação dos umbigos de alguns que procuram não sucumbir. Os restantes não sabem donde vieram, nem onde estão, nem para onde vão. Quanto a mim quero apenas poder dormir. E não, não é sonhar! É dormir mesmo.


terça-feira, junho 15, 2004

Postal enviado por um fervoroso jovem adepto inglês para a sua mãe

(traduzido da cockney language pelo nosso enviado especial à famigerada Rua dos Horrores em Albufeira)

Foda-se férias de estalo. Mesmo. A cerveja portuguesa é melhor que a nossa. Girafas a 5 €. Um sonho. Estou encarnado do sol e assim poupo pois só tenho de me pintar com branco. Foda-se que a cerveja é mesmo boa. Ontem fodemos uns quantos franceses. Quem nos incomodou um pouco foi a bófia portuguesa. Caralho com cavalos e cães e tudo. Mas foi de arromba. Só levei quinze pontos. Anteontem desanquei um português. O gajo perguntou como é que umas bestas como nós tinham conseguido ter um império. Eu não percebi onde é que ele queria chegar e pelo sim pelo não pimba uma cabeçada. O Paul está bem e tranquilo. Está preso. A Mary tem-se divertido à grande e já mocou com os dezasseis do nosso grupo. Ontem como estávamos todos à batatada aviou quatro pretos (segue-se uma bojarda intraduzível no original) de míuda. Férias do caralho, foda-se! O pai foi repatriado hoje. Beijos do seu filho.

John Hooligan Smith


Verso do postal - Algarve - imagem de uma bunda celulítica e tatuada em cima de uma rocha

sábado, junho 12, 2004

Um brinde à selecção nacional: ainda agora a coisa começou e já se vêem gregos...

sexta-feira, junho 11, 2004

Noitadas
e Regabofes



A noite está cara como o caneco. E o pessoal anda teso como o caraças. São ambas faces da mesma moeda. Vai daí o actual estado raquítico da assiduidade das noites. A noite precisa de gente. E as gentes precisam de noites. Se o preço da coisa não baixa, o pessoal não sai tanto. Mas compreendo os donos das casas: como o pessoal não sai tanto, o preço da coisa não baixa. Arre! que é tacanhez. Como é possível a um utente de calibre mediano, em matéria etílica, aguentar uma noite de copofonia? Vejamos: a nove euros cada whisky, um ser normal, que beba oito unidades, no decurso de uma noitada, já gastou setenta e dois euros. Catorze contos, senhores! É obra! E considerando que esse mesmo ser, por uma questão de filosofia de vida, sai pelo menos quatro noites por semana, dá um total de duzentos e vinte e quatro contos ao mês. É claro que estou a brincar... Porra! É claro que estou a falar a sério! Que gozo pode haver num ambiente desfalcado de personagens e, para cúmulo da apatia, todas as restantes encontrarem-se comedidas, acabrunhadas e preocupadas com o budget para os copos? Não havendo possibilidade de expandir a loucura, as hostes retraem-se e sentem-se esmifradas. É um círculo vicioso para o qual não há pachorra. Está bem de se ver que, com preços mais baixos, o pessoal sai mais e, melhor ainda, aguenta mais tempo nos locais. E como fazer isto sem perder dinheiro? – perguntam vocês, empresários preocupados. É simples: o valor do consumo mínimo mantém-se e, pelo mesmo valor, a malta tem direito a beber mais, ficando mais feliz e mobilizando mais amigos. Logo, por arrastamento, acaba-se por fazer mais dinheiro, havendo mais gente a circular. É sempre a subir. Dá é mais trabalho. Mas isso também é subir. Básico, não?

quarta-feira, junho 09, 2004

Não porque seja fácil e também não sendo fóssil, e porque já vos disse o porquê, aqui vai mais uma do arquivo do SULturas.

Irra!

Se querem que vos diga, recordo-me perfeitamente. Eram seis da tarde e eu tinha dez anos. Estava sentado ao lado do meu pai, muito entretido a observar a fauna que se encontrava no Café Nicola. Meu pai lia o Século e eu resistia às caretas das velhas pintadas. Sem aviso e muito de repente, saído do carrossel da porta giratória, estacou um ser esbugalhadíssimo que se pôs a observar o recheio humano de toda a sala. Instalou-se um silêncio incómodo enquanto todas as cabeças apontavam para o homem. Depois de resistir ao tiroteio de olhares, o homem vociferou: “Irra! Vá lá um gajo pintar as trombas destes palermas”. Voltou costas e saiu deixando a porta a girar num rodopio. O silêncio foi quebrado por duas ou três gargalhadas, um pouco nervosas lembro-me bem. Meu pai antes de reabrir o jornal disse-me em tom sério e pedagógico, justificando plenamente o mérito de tal acção: “ É pintor!”. Nunca mais vi o ser e jamais cheguei a perguntar ao meu pai o seu nome. Na qualidade de anónimo tem-me servido perfeitamente para os devidos efeitos. Fiquei desde esse dia a saber que os seres de casta esbugalhadíssima, têm o poder de silenciar uma sala e decidir acerca do que fazer com as trombas dos palermas, sem necessitarem de requerer alvará ou diploma competente para tal, pois são uma suprema autoridade na matéria disciplinar da essência do humano. A expressão da loucura acompanhada do requinte do brilhantismo, causam-me arrepios na espinha e dão-me os únicos vislumbres de algo divino nos seres humanos.
Cultura sem loucura é uma treta hermética, boa para conversas de chá de cadáveres eruditos. Loucura sem cultura é simplesmente uma tristeza, boa eventualmente para regar a estupidez natural da juventude. Do casamento das duas é que nasce o que é bom. Pois então! Mas há que ser comedido; nem muita cultura nem muita loucura. O que é demais não presta e como a Sociedade está longe de ser perfeita, pode-se acabar preso ou com camisa de forças. Há então que praticar a coisa com calma. Tirar partido da total ignorância dos outros acerca de nós. Ser tolinho às nove e meia e dizer coisas p’rá posteridade às nove e trinta e dois. Baralhar em grande estilo.
Há ainda o total direito de dizer caralhadas publicamente ou em privado, por parte de quem saiba inserir num ramalhete de verborreia arcaica uma estopada do tipo: idiossincrasia! Já deveriam, no entanto, de ficar interditos da utilização oral das mesmas, os seres lerdos ou boçais que dispõem apenas de uma dezena ou duas de palavras no seu vocabulário. A título de avaliação da diferença exposta, cito dois exemplos: “Amélia, apesar dos repetidos avisos proferidos pela minha pessoa, quanto ao facto de Você não dever facultar peças do serviço de loiça chinês para as singelas e pequeníssimas mãos da nossa Filipinha, a sacana da criança, contudo, acabou de escaqueirar uma puta duma chávena... Faça o obséquio de ter mais atenção de futuro, foda-se!”- Lindo! E: “Carago Maria, tira o púcaro de merda das patas da cabra da Vanessa antes que vá para o caralho!” - Horroroso!
Mas quando se tratam de escritas, as ditas bojardas já nem chocam. Pena é que hajam escribas manhosos a aproveitarem-se do estrondo inato desses crus ornamentos linguísticos, utilizando-os como eventuais lantejoulas inovadoras para pseudo obras literárias sem incandescência genuína. - Irra! Vá lá um gajo competir com estes palermas!

terça-feira, junho 08, 2004

Lisbon Revisited - O autêntico, o genuíno
(1923)

Álvaro de Campos



Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estheticas!
Não me fallem em moral!
Tirem-me d'aqui a methaphysica!
Não me apregoem systemas completos, não me enfileirem conquistas
Das sciencias (das sciencias, Deus meu, das sciencias!) –
Das sciencias, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se teem a verdade, guardem-a!

Sou um technico, mas tenho tecnnica só dentro da technica.
Fóra d'isso sou doido, com todo o direito a sel-o.
Com todo o direito a sel-o, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, futil, quotidiano e tributavel?
Queriam-me o contrario d'isto, o contrario de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciencia!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sòzinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sòzinho.
Já disse que sou só sòzinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infancia –,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outr'ora de hoje!
Nada me daes, nada me tiraes, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abysmo e o Silencio quero estar sòzinho!



quarta-feira, junho 02, 2004

ANFETAMINA

São três da manhã. Eu já não sei nada. Este carro bem podia andar muito mais depressa. Não sei para onde vou mas urge chegar. Não concorda? O melhor se calhar é ir sempre. Sempre! É isso: não convém chegar sequer. Se houvesse possibilidade engolia todo o Presente, só para digerir o Passado e arrotar o Futuro. Que novos rituais inventaram agora? Nada. São tudo formas modernas de ser-se antigo. A moda fica sempre obsoleta e a estupidez continua a ser a melhor notícia. E vós minhas queridas? Nem belas, nem inteligentes, nem ao menos fieis. Vossas senhorias sois apenas apêndices da minha agonia espiritual. Seria bom arranjar uma namorada formada em Química e Farmácia: quecas e drogas novas. Perfeito! Sempre gostaria de saber porque nunca me matei. Nunca tiveram a sensação de tudo existir por vossa causa? Mas a festa está sempre à solta. Não é? Quanto mais tolo, mais gozo. Em frente. Larachadas e engates avulso! Nas noites em que fui parvo e fútil, adormeci quase sempre acompanhado. Quando começo a fazer o balanço de tudo e fico mais perto de ser lúcido, fogem todas a sete pés. Mais vale ser futebolista, ou culturalmente um “excesso”. Não me interessa. Com os pés já afaguei vaginas aflitas. Bonito, não é? E uma vagina continua a ser um espaço virtual sempre à espera de ser visitado. Acho que a poesia se resume a isto: visitas espontâneas pelo Universo dentro! Pode-se visitar tudo e nem é necessário deslocarmo-nos. E você, entretanto, já se convenceu que é alguma coisa? Não se iluda. Continue a sua tarefa de estar vivinho simplesmente, e basta!!! Não queira ir mais longe, pelo facto de que não saberia como. Reduza-se. Porra! Detesto estes putos barulhentos a gregoriarem à volta da minha pessoa. - Ó pá se vomitares para cima do carro levas-me às cavalitas! Não há nada pior que a juventude: hormonas descontroladas, força muscular e ignorância! Mas isso numa gaja até pode ser quase uma virtude. Etc. Etc. Tenho um cigarro acabado de acender, deitei uma beatinha mirrada pela janela do carro, e está uma beata crescida a arder no cinzeiro. O que seria eu sem o tabaco? Diz-me para virar na próxima saída? Mas ali só há uma discoteca de burgessos. Pronto já sei: você também se tornou um gajo com pinta através de um catálogo. Está bem, eu deixo-o lá! Não me agradeça; a minha vida tem sido uma sucessão de altruísmo-pelo-combate-ao-tédio. Eu explico: canso-me com facilidade de mim. Preciso de sair constantemente. É claro que tem sido quase sempre como dar pérolas a porcos. Mas, assim como assim, divirto-me neste processo. Se eu lhe disser que você é uma personagem que eu inventei esta noite, não acredita? Ah! Aselhas! Qual tolerância zero qual carapuça! A lei deveria ser alterada: quem se deixasse bater por trás tinha sempre a culpa. Era ver todos a rodarem à ganância. Nunca mais haveriam engarrafamentos. E nós, pessoas de bem que circulamos natural e seguramente a um “pintor e 80” por hora, já podíamos dizer com toda a propriedade: “ se não sais da frente, escavaco-te, Arrrrrrrrrrrrrrrrreee! ” Era lindo e fluente. Quer que eu vá mais devagar? Tem medo? Mas de quê? De morrer ou de não viver? Abra a garrafa de bolso que está no tablier; como pode constatar só me faltam a bordo os sacos de vómito. Pronto, já chegámos. Não, para ali não vou. Entenda-me, não consigo estar com mais de um asno de cada vez, e aquilo é um meeting deles. Não estou com “onda”? Meu caro; “ter onda é cagar na onda dos outros”! E já agora fique a saber que não trocava, por nada deste mundo, o meu nariz abalroado, os meus olhos desfocados e o meu rosto de boa linhagem a precisar de bate-chapas e com a cremalheira dentária periclitante, pela sua irreversível cara de padeiro. Divirta-se. Quando você se transformar em verme talvez eu seja um pinto. A dialéctica é uma coisa fabulosa. Agora vou-me embora. Estou com pressa. Deus era lento: seis dias para criar isto. Em seis horas já criei e arrasei mentalmente universos desmultiplicados. Deixem-me ir ! É preciso ir ! Ir !!!!

terça-feira, junho 01, 2004

A pedido de várias famílias, por imposição de fãs descontroladas e por solicitação de leitores devotos, irei proceder com alguma regularidade a um repositório apurado de textos editados no SULturas (o pasquim), porque nunca tive uma homepage onde depositá-los, porque é o único modo de os dar a conhecer a quem não apanhou a edição e porque me apetece. Não têm de agradecer.

WHISKY

Não tenho de provar coisa alguma ao Mundo. Nunca tive. Nem a mim próprio. Ainda agora penso, que nem V.Exa. tem dinheiro para me comprar, nem eu estou à venda. Compreenda: o Sr. é um labrego e eu com a minha pinga de sangue azul dissolvida gerações atrás, seríamos sempre incompatíveis. Já não acredito em nada. O que é que existe para se acreditar? Chateia-me apenas o facto de não ter dinheiro para executar o meu terrorismo. Metaforicamente falando, já se vê. O que eu criaria? Conheço a sua lábia ; se eu lhe contasse mais, amanhã estava o projecto em marcha. Não é, ó mentecapto?! Não. Nada. Rigorosamente coisa nenhuma. E é aí que reside a diferença: você mata-se para arranjar a sua tranquilidade, eu vivo sem tranquilidade nenhuma. Ainda há dias estive a falar com um daqueles seres que se esfalfaram a vida toda para conseguirem ter comodidade. Com muito suor e orgulho. Patético. É o mesmo que me dizerem que chegaram à América a nado. Será que não sabem da existência dos aviões, transatlânticos, submarinos, ou até dos barcos à vela, ou mesmo jangadas? Não há mérito nisso. Nem em funções de esforço. Nem em qualquer tarefa humana. Há actividades louváveis e ponto. Mas são tão poucas! Ser inteligente é, para mim, uma doença incurável. Gostaria de viver numa sacana duma pátria mais atenta para com os seus filhos. Bastava-me ter sido normal, no entanto como abomino essa palavra. O que eu quero da vida? Whisky. Sempre cheio se faz favor. O sexo também é bem-vindo, embora as fêmeas nunca tenham entendido o movimento que a alma pode impulsionar ao pénis. Você tem projectos, já sei. Mas, do meu ponto de vista, os projectos são a imperfeição humana. O tempo que decorre entre uma ideia linda e a sua concretização é a nossa impotência em marcha. É a puta da matéria. Não. Nem escrever. Matei em mim A POESIA toda. Tive um amigo que morreu no ano em que se formou em Veterinária. Sonhava extrair vitelos e zebras das conas das suas mães em África. Disse-me um dia: os melhores poemas são simplesmente aqueles que nunca foram escritos. A linguagem é uma armadilha e nós somos a sua presa (onde é que eu já ouvi isto?). Ir mais longe é um exercício solitário e de alto risco, não pode cair no papel. Não me entende? Eu já sabia disso. Você usa verbos que eu já esqueci: ter, fazer, criar, progredir. Ó falo murcho em mente estagnada: SER! Há que ser com toda a força. Só isso. Todos falam hoje, à boca cheia, do futuro. Não agarrem eles o presente... Não caguem eles no passado... O que quer que seja que seja já, imensamente agora! Não há tempo para mais, nem pachorra para tais! –Whisky e já! Está a ver? O barman entende-me. É tudo tão simples que chateia o facto de ter de enfrentar constantemente seres como você. Não quero nada, tenho meramente fome de tudo. E já! Arte? Sim, com tremoços. Escrevi ensaios com sete canecas de cerveja. Arrotei muito. Mas dá azia. Não suporto efusões gástricas do espírito. Prefiro o efeito avassalador, anedótico e humano do whisky. Já controlo suficientemente bem as ressacas. Sabedoria é isto. Saber ser. Desculpe mas não aceito: a partir de agora só bebo duplos. É cavalgante depois de uma série de copos. Não está interessado em pagar-me um duplo? Nem eu! Ouça cá, conhece a obra de Herberto Helder?...
"-Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu..."

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