<$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, abril 25, 2005

25 de Abril
-dois apontamentos


1) A História que ficou adiada

Discurso de Francisco Sá Carneiro proferido em 11 de Janeiro de 1980 no Palácio de São Bento perante a Assembleia da República, para apresentação do Programa do 6.º Governo Constitucional
...
A política do Governo é por natureza humanista no projecto, portuguesa na raiz e europeia na vocação. Contribuir para a edificação de Portugal democrático é o seu objectivo. Ajudar o processo de revitalização da sociedade civil e fomentar o reencontro entre o Estado e os cidadãos é o seu método. O Governo está interessado no aprofundamento das solidariedades entre os Portugueses, na afirmação e realização da pessoa humana e no desenvolvimento da justiça social. Como está interessado num exercício mais amplo das capacidades da iniciativa privada, individual ou de grupo, na convicção de que o progresso material do País tem nela o seu motor principal.
...
O Governo atenderá às responsabilidades que cabem ao Estado na protecção dos mais desprotegidos e dos marginalizados da sociedade. A guerra contra a pobreza e a ignorância está na primeira linha das suas preocupações. E nesta luta o Estado deve dar o exemplo. A transparente honestidade da administração pública tem de se traduzir num firme combate a todas as formas de corrupção e numa prática quotidiana sóbria e digna.
...
No plano social, o Governo preocupar-se-á, sobretudo, com as carências mais significativas nos domínios da habitação, da educação, da saúde e da segurança social. O Governo inscreve no centro das suas preocupações a melhoria da qualidade de vida e do bem-estar dos Portugueses, essência da sua luta pela justiça e por mais sólidos suportes materiais e culturais da liberdade.

...

2) A realidade que está instalada

Outra ilusão...
...pena que a Liberdade só sirva a alguns...
...os excluidos duma sociedade são-no tanto em liberdade como na ausência dela e a esses de que lhes serve a liberdade de poder gritar que tudo lhes falta, se tudo lhes continua a faltar...?

in:amok-she.blogspot.com

domingo, abril 24, 2005

A pedido de várias famílias conservadoras e ortodoxas, a requisito de leitores de vanguarda, por imposição de fãs descontroladas, por ultimato do ministério da cultura e também bastante porque me apetece, passo a transcrever na íntegra, muito embora já tivesse postado excertos, a entrevista lusitana do século! Convém lembrar que o século ainda é pequenino. Decidi, como editor do SULturas - o pasquim, incumbir José da Procura Incessante de Tacho - nosso director, de entrevistar António Andróide da Nação - nosso chefe de redacção. O resultado foi o que segue por aí abaixo:

José da Procura Incessante de Tacho
entrevista, em absoluta exclusividade,
António Andróide da Nação


Após uma ausência de três anos, período em que se relegou para o limbo do silêncio e do ascetismo, António Andróide da Nação (AAN) volta ao nosso convívio, despojado de artifícios e com a mais límpida das intenções: escrever, para que a língua portuguesa mantenha a sua chama e o seu cânone. José da Procura Incessante de Tacho (JPIT) foi ao seu encontro na Praia da Oura, onde AAN passa os dias a olhar para o mar, escrevendo uma linha agora e outra adiante, a intervalos irregulares. Revela-nos que o tempo começa a correr de modo menos célere com o passar dos anos. Há uma entranhada sabedoria nos seus mais pequenos gestos. Tem um olhar sereno, muito diferente do brilho demoníaco de outrora. Fala pausadamente e com segurança. Longe vão as exaltações das explosões mentais e das demolições intelectuais, sabendo, no entanto, que muita coisa continua por demolir. É um homem retemperado e amadurecido. Manteve a sua paixão pelo vinho tinto de castas lusitanas e prossegue na demanda de um novo ideário para Portugal. Reafirma, no seu quotidiano, que resistir é vencer. É um solitário que, regra geral, não se sente só. Prescinde de companhia, por acreditar que somente nos monólogos consegue ter conversas inteligentes. Nunca deu entrevistas por esse mesmo motivo. Mas confessa que é gratificante, por vezes, ser ouvido. Agora foi obrigado, pelo nosso editor, a abrir a porta do seu templo. Coisas da vida.

JPIT – Conte-nos um pouco do seu percurso desde os primórdios da sua conturbada actividade, supondo eu que escrever desalmadamente implique um estado alterado, um misto de tempestade mental e inspiração, e a sua concretização consequente...

AAN – Creio bem que terá sido no ano de 1986, que surgi no mundo real, pela mão de Nuno Elmano. Publiquei, em Maio desse ano, um poema pró-niilista intitulado: Dedicatória. Foi uma hecatombe em termos de impacto cultural. Nunca ninguém se atrevera a desancar a realidade, de tal modo, em Portugal. A edição pirata - apenas trezentos exemplares, passou despercebida ao grande público, tendo, no entanto, irritado sobremaneira os ilustríssimos e caquécticos senhores que decidem o que é culturalmente aceitável ou não. Mas também, quem quer aproveitar a aprovação grotesca do grande público ou dos atrofiados eruditos da inquisição intelectual? Apenas os mercadores, não? Além disso, nunca me preocupei com a opinião pública: a ideia que façam de tudo, ou mesmo de mim, é somente um erro que me é alheio.
Em 1994, o Elmano mobilizou-me para um novo projecto: o SULturas. Aceitei de bom grado. Foram anos intensos, mas muito pouco satisfatórios em termos de afirmação. Quem se divertiu imenso foi o Nikon Flash de Absinto – as gajas adoram posar para as máquinas fotográficas. (risos) A fórmula do pasquim era demasiado popular. Mas tal como o Elmano me explicou: “Temos de comer todos os dias, este é o lema interno do pasquim”. Esteve, no entanto, sempre adjacente na filosofia da publicação, o cultivar de algo mais do que um humor pobre e simplista. O sarcasmo, aliado a uma ironia cáustica, foi a nossa arma predilecta. O Elmano nunca teve o ensejo de meter mãos a uma obra consistente. Primeiro, por ter, assumidamente, falta de método; segundo, por ser um descrente relativamente a obras de volume, ou literatura a quilo, tendo criado, para efeitos de combate a essa gordura da produção da mente, o conceito de escritor avulso. Também eu confesso não ter pachorra para certas merdas de peso que se editam.
Contudo, viria a ser no SULturas, em 1999, que escrevi a melhor peça jornalístico-visionária do fim do mundo - Apocalipse. Foi um furor. É pena que o mundo não tenha acabado mesmo, pois teria tido uma carreira brilhante à minha frente. Enfim... (risos)

JPIT – Como vê o Portugal de hoje? Ainda acredita estar a nação predestinada para grandes desígnios, tal como defendia no seu passado?

AAN – A pátria está “apimbalhada” em todas as frentes. A juventude está anestesiada. O maior horror é ver os próprios jovens imberbes com atitudes de javardos, tidas à imagem dos ocos e toscos seres que mitificam e idolatram. Há saloiice em barda na política e mediocridade impregnada na alegada cultura e ninguém tem os badamecos no sítio para transformar a alarvidade social. É um triste momento histórico, este em que vivemos. As elites moribundas, umbilicais e desinteressadas – e não falando da incultura de que são, actualmente, detentoras, já nem se preocupam em estupidificar, moldar ou amansar as massas. Deixou de ser necessário. Estas tratam de si próprias, mutilando-se mentalmente, com o acervo de imbecilidades que consomem desenfreadamente. O povinho tornou-se boçal e comezinho, porque não prescinde da sua teimosa ignorância crassa, sendo o seu conceito de evolução apenas bancário. A sua divisa: inveja, ganância e desrespeito. E esse povinho já frequenta os circuitos do poder. A par do recrudescer da estupidez, vem o assentar arraiais da sacana da esperteza saloia. A chusma de energúmenos que enchem os estádios, os centros comerciais e dão audiências às lobotomias televisivas, é a mesma turba que, no quotidiano, está pronta a enganar, sacar, corromper, cometer atrocidades, crucificar terceiros e sabe-se lá o quê mais. É medonho. É reles. É atroz. Portugal embrutece, envelhece e nunca mais acontece.

JPIT – E como encara a actual situação económica do país?

AAN – É o somatório de várias misérias. O corolário da saloiice e da mediocridade que já citei, mas desta feita, também aplicado à classe empresarial – incompetente, obsoleta e brutal (tirando as honrosas excepções). Mas a classe trabalhadora também tem culpas no cartório (tirando, mais uma vez, as honrosas excepções). A mentalidade do “deixa andar” e do empregozinho tipo funcionalismo público, ainda enraizada, atrasa e emperra todo o processo de produtividade. Em Portugal, tal como já alguém o disse, não se faz, faz-se de conta. E isto está entranhado em todos os processos das múltiplas actividades. A actual clivagem dos estratos sociais é uma aberração. O abismo, em crescendo, entre ricos e pobres, advem, não da transferência do dinheiro de antigos e conservadores para anónimos e modernaços – o que por si só, já é horroroso o bastante, mas da permissividade económica e do capitalismo financeiro, que os bastardos dos liberais promovem, os quais engendram lucros descomunais e fáceis, a troco de quase nenhuma produção, não se gerando, como é óbvio, uma distribuição de riqueza. Daí o desemprego e o mirrar. Portugal já não tem muito de seu. Os centros de decisão já nem estão por cá. Adverti, em tempo útil, os microcéfalos do poder central de então, acerca da salvação do país: o turismo. Esse é o mais valioso astro do nosso firmamento. Um turismo pensado, planeado e promovido a sério, com campanhas a sério e verbas mais que sérias. Na Expo98 tivemos um mísero outdoor em Nova Iorque. Pindérico e humilhante. Terá de ser um turismo assente no património histórico, arquitectónico, cultural e paisagístico. Não se pode vender apenas o sol e as praias. Os nuestros hermanos de um simples peido produzem um reluzente marmelo. Nós deixamos os marmelos apodrecerem. É simplesmente asquerosa e abjecta a pasmaceira instituída, aliada a um chumbar constante de ideias válidas. Daí o desencanto de muitos, por sinal os mais lúcidos e empenhados.

JPIT – Vislumbra soluções, ou antes, tem ideias acerca do desenrolar de todo este imbróglio nacional, num futuro próximo?

AAN – Numa primeira fase, o endurecimento do poder político. Já que a razão está ausente, contentemo-nos com a autoridade – Pedro Abelardo, Séc. XI. (risos) E com esta autoridade, proceder à aniquilação da corrupção e do “todos-a-mandar” à brava. Tratar de reajustar a economia às necessidades de todos os portugueses, utilizando, cada vez mais, as rédeas do Estado. O ressuscitar valores, revitalizar princípios e prosseguir convicções. Educar tudo e todos. A liberdade é um bem precioso demais para ser desperdiçado com quem não mereça ou não saiba usufruir.
Posteriormente, que se crie um projecto exaustivo, pode ser por concurso público (risos), para um “Portugal a caminho de mil anos de História”. A pátria já foi adiada tempo demais. Creio bem, que a euforia da Europa retardou o necessário despertar nacional. A Europa é, para Portugal, um mal geográfico necessário, e ponto! Deixemo-nos de ambições nesse domínio. Ainda agora vêm a caminho, novos estados-membros que rapidamente nos poderão ultrapassar. A nossa afirmação terá de ser efectivada pela diferença. E também numa notória demarcação política. Porque não um corporativismo pós-moderno? Precisamos de um dealbar pensado em perfeito e selecto colectivo e executado com escrupuloso rigor. Não se trata de esperar um Dom Sebastião numa manhã de nevoeiro, trata-se de aclamar novíssimos “Sebastiões” com dom para novas auroras. O ridículo e o absurdo já tomam conta de coisas demais na realidade quotidiana, não se pode permitir que o poder e os seus dignitários sejam também contaminados. Portugal urge.

JPIT – Falemos agora de si e do seu universo quotidiano. A solidão é algo que o conforta? Como conjuga essa maneira de estar, com o encanto, ou desencanto, de encontrar e reencontrar outros?

AAN – Sou humano por mero acaso. Como tal, sou um observador por excelência. Há toda uma paisagem humana que me inspira. Mas apenas como protagonistas de um universal enredo que não dominam. Que ninguém domina, mas não o sabem. Aliás, não o querem saber por medo. O medo é, sem dúvida, a grande alavanca da civilização. Enfim, é a condição humana. Apesar disso, no relacionamento com as pessoas, acredito sempre. É mais fácil assim. Trata-se, como é óbvio, de complacência para com a taralhouquice, ou de confiança para quem a mereça. Mas não sou brilhante a conviver com quem não conheça bem. No entanto, impregno esse contacto com calor humano, que é quase sempre devolvido na mesma medida. Não custa nada minorar a agonia e a dor. Isso é uma coisa que todos sentem. Mas dou-me essencialmente bem com a solidão. É com ela que acontece a fabricação de tudo o que melhor nos define. Nesse estar só, reinventa-se o homem e o mundo. A solidão é o universo do sonho e o sonho do universo. Estar só, é sentir o universo - já o escrevi. Somente os seres fúteis não gostam de estar, ocasionalmente, sós. Além disso, todos os actuais circuitos sociais têm tanto vampirismo latente, com o intuito de transfusão de ideias, que não há carótida que aguente tanta sucção. Estou só, por questões de sobrevivência intelectual e de afirmação individual. Por questões de definição de trajecto. Não sei pactuar com a vulgaridade vigente. Sou exigente demais para comigo próprio. Daí o ficar quieto tantas vezes. Aguardam-me os anos cruciais de toda uma vida. Nem mais.

JPIT – É nesse ponto que surge o silêncio, ao qual por vezes se remete?


AAN – O silêncio é, absolutamente, muito anterior à comunicação. O silêncio é a religião antes da crença; a poesia no seu estado puro, o verbo muito antes da palavra. O silêncio é a suprema linguagem, a sinfonia predilecta dos deuses. E acreditem, vai continuar por cá muito depois da queda da nossa civilização. Qualquer ser humano esteve calado desde sempre. De repente nasce... e pronto: está a bazófia barulhenta armada. A jactância eloquente de alguns ou a prosápia inconsequente de outros, mas sempre o dizer nada em voz muito alta. É claro que fomos bem castigados. Morre-se e fica-se calado, outra vez, para sempre. Lindo e silencioso. Pois é.
Pensar é o maior empreendimento humano, não se pode cingi-lo ao exercício das palavras. Há muito de intuição na compreensão da vida e do universo. Isso é puramente intraduzível. Percorre-nos, ou não, na seiva da imaginação e nos fluidos da apreensão.
No silêncio, como fonte de nascente inesgotável, bebem-se todas as ideias. O silêncio não é de ouro: é o próprio graal.

JPIT – E como encara a nova escrita em Portugal?

AAN – Existe?

JPIT – Bem, seja! E os novos escritores?

AAN – Dos novos escritores sei pouco. Apeei-me do carrossel das novidades por tédio acumulado. Problema meu, bem sei. Mas a escrita está a atravessar uma fase de expansão e de alargamento dos seus escribas. Dos que conheço, há por aí uma rapaziada com pintarola e estilo que assaz me diverte. Mas são muito poucos. Os restantes, mais valia que estivessem manietados, ou então, que fosse emitida licença de porte de pena (risos) apenas para os mais válidos e esforçados. Quanto aos dinossauros, continuam a sua saga hermética e pesadíssima. Ademais, qualquer tipo que passe muito tempo a escrever, tal como o meu psiquiatra, deve ter um problema psicológico grave, ou uma adolescência mal resolvida, tal como o Pedro Paixão (risos). Há ainda o caso de certa “literatura” que só faz sentido, se algum sentido tiver, ao ser adaptada para cinema de segunda categoria, convenhamos. A lamechice pacóvia e a estética barata e berrante é o que mais prolifera. Modernos? Não me lixem, pá!

JPIT – É então apologista de um universo da escrita que seja apenas para cultos e eruditos?

AAN - Não de todo. Até porque a loucura e a criatividade não carecem ser fundamentadas. Precisam somente de jorrar com naturalidade. Haja talento quanto baste. Hajam autodidactas com pujança e arreganho. E, é claro, leitores com elasticidade mental. No entanto, o universo restrito que evocou, sempre existiu e sempre existirá. Compreendo-o e aceito-o, mas não o sustento porque é cada vez mais alienígena em oposição à realidade.

JPIT – E como encara o mundo dos media?

AAN - Hoje em dia padece-se do síndroma do consumo da comunicação. Mas a maior parte dela não passa de pura bacorada, informação desnecessária, ou de mero ruído no canal. Pior ainda, trata-se de tudo isto, mas, somente, com a finalidade de comércio desenfreado e caótico apoiado num sensacionalismo bacoco que já está institucionalizado.
E no domínio do entretenimento é o horror supremo. As pessoas vão ficando esvaziadas de paixões reais e preenchem esse vazio embasbacando-se com a virtualidade fácil da televisão. As avós já nem fazem filhós. Vêem telenovelas. (risos)

JPIT – Acusam-no frequentemente de ser elitista e de ter uma postura arrogante. Tem consciência disso?

AAN – É óbvio que sou elitista: acredito muito precisamente em mim. Defino-me como anarco-totalitário. (risos) E quanto a arrogância... Bom, tive uma infância feliz e uma juventude revolucionária e activa que muito me ensinou e fortaleceu, tendo deixado marcas indeléveis no comportamento ou nos desvios do mesmo. (risos) Posteriormente, evoluí no sentido diametralmente oposto – a interiorização. Desde então, tenho gerido a minha liberdade com o devido à-vontade. Não tive qualquer aprendizagem mafiosa, nem sou detentor de ambição desmesurada. Logo penso que a postura arrogante virá, inevitavelmente, do aprumo do espírito, da nobreza do carácter, da franqueza do discurso, da luminosidade do ser, da superioridade do sangue, da candura da alma, do brilho da mente, da loucura grávida de porvir, do ser conservador pela preservação da individualidade, da capacidade de amar ou da incapacidade de aturar bestas, e, muito depois disto tudo, dos motivos que queiram encontrar. Muito obrigado. (risos)

JPIT – Projectos para o futuro? Não tem de revelar os secretos... (risos)


AAN – Sonho vir a escrever, no domínio da ficção, a primeira página mais brilhante e genial jamais criada. O resto da obra serão trezentas páginas em branco, onde o leitor poderá participar activamente. Literatura interactiva de última geração. (risos finais)

sábado, abril 16, 2005

E para saberem todo o resto comprem a próxima PORTUGALNIGHT.

Life is life
ou da redundância da vida


Amanhã vou finalmente ser eu. Eu todo no que ainda não fui. Eu imenso no que projectei ser. Mas vou ser devagarinho; nada de ganância que isto de ser exige muita dedicação ao tema. Sim, que ser é um verbo completo, muito contrário à avareza do verbo ter. E já agora, quando se é único compete-se com quem? Caramba, como me enfastia a obrigatória especialização monocórdica, besuntada de incultura geral, para ter acesso a chafurdar no lodo capitalista dos dias de hoje. Quero ser fotógrafo de manhã, enólogo ao almoço, egiptólogo das quinze às dezoito horas, amante ao fim da tarde, escritor ao jantar, empresário a fazer sono, boémio na madrugada, pintor na alvorada, arquitecto corrector paisagista p’rá semana que vem, engenheiro de alambiques p’ró mês seguinte, cirurgião de almas p’ró ano vindouro, aprendiz de Deus para sempre. Também gostaria de organizar caçadas turísticas, com os fantásticos “desportistas” que são os matadores de focas à paulada – apitava a corneta à porta da coutada e de taco de basebol numa mão e de carabina na outra, gritava-lhes: “corram que concedo-vos trinta segundos de avanço!!” Se o destino quiser, irei gerir bem o meu livre arbítrio. Continuo a seguir à risca o conselho do saudoso Alexandre O’Neill e, como tal, não me candidatei nem me demiti - tenho assistido. E cansado de assistir. Este espectáculo lusitano nunca foi grande coisa, já o sabemos. Falta-lhe rigor, mestria e opulência. Exaure-nos a pachorra e depaupera-nos a esperança, o nunca mais acontecermos em sinfonia, o jamais sermos em sintonia, sem que alguma vez alguém apure onde está o busílis da questão, mas todos pressentindo que seria preciso tão pouco para o concretizar. Onde haverá um Dom Sebastião de aluguer? Aprazem-me depois, e deveras, os ornamentados tiranetes provincianos e a sua fanfarra consequente. Mentecaptos a ordenarem rebanhos atordoados e seus lacaios a ordenharem manadas mirradas. Pessoalmente terei talvez de amputar alguma sensibilidade. Ser sensível atrapalha como o diabo nas coisas diárias e domésticas do mundo. Meu amor, cria-me rotinas, dá-me tarefas, que quero ser pragmático a preceito, pelo menos no domínio da paixão. Porventura trouxeste o medidor de almas? Sinto-me grande e já nem encontro o porquê. Provavelmente deveria reduzir-me à dimensão do meu salário. Não, isso queriam vocês, ó abutres costumeiros! Aparte isto, ainda tenho hectares de sentido crítico, quilómetros de reflexão e continentes de consciência. Pois, que os meus sonhos são meros oceanos! Apetece-me entrar nu e a correr pelo aeroporto de Faro adentro, exigindo que me ponham no primeiro voo. –E qual o destino? - Daqui para fora já, onde haja Sol. E só ida, entendido?! São três da tarde e isso serve-me rigorosamente para nada. Às quatro beberei um gin-tónico. Às cinco voltarei a pensar regularmente e às seis espero ver-te na esplanada. Exactamente tu, que calhando nem sabes que existo. Depois disso seguem-se muitas outras horas. Amanhãs também disponíveis. Tenho de me acalmar. Pensar num ansiolítico existencial. Voltar irremediavelmente ao ponto de partida e planear novos voos. E é sempre isto, não é? É verdade que o Verão não tarda. E ciclicamente o cio se renova em ondas de calor. Entre cá e lá duzentos e sessenta quilómetros que percorro invariavelmente nas noites cálidas dos meus fins de semana. Como é bom saber que existes, Lisboa. Apesar de andar menos selvagem, ser um bom ouvinte, ter doses maciças de compreensão, tolerância quanto baste e boa vontade abnegada, não pára de me ocorrer apenas uma frase neste stress do mundo actual: SAI DA FRENTE!!!!

quinta-feira, abril 07, 2005

Porque estou em atraso com a crónica para a PORTUGALNIGHT, embora sendo o atraso um facto crónico na minha vida, lembrei-me do que se segue abaixo, coisa feita num período em que um queijo afectou um orçamento de Estado. Divirtam-se.

ACERCA DE NADA

Telefonaram-me no instante preciso de uma dentada com afinco numa costeleta fumada. Estava a jantar na Cervejaria Alemã. Atendi a coisa de boca cheia. As atitudes grotescas, tal como falar de boca cheia, deixam de ser feias quando feitas ao telefone. Era o Miguel Barreto com todo o stress do fecho de mais uma edição. A minha crónica ainda não estava lá! (O estado de sítio que se instala numa redacção, nos dias que precedem o fecho de uma qualquer publicação, é uma coisa única e indescritível. E se a situação se encontra já em estado de atraso, então é uma convulsão: cafeína, cigarros em catadupa, comunicações histéricas, espíritos eriçados, redactores a tropeçarem em vírgulas, secretárias à beira de um engasgamento de nervos, fotógrafos a flasharem em contínuo, paginadores com tiques de parkinson e colaboradores a bufarem por todos os lados. Uma visão só possível de imaginar a quem já tenha andado nestas guerras.) Eu, acabada a ingestão da garfada e rematando com uma golada inspiradora de cerveja preta, acalmei-o. Expliquei-lhe que estávamos em Portugal. Tudo se atrasa natural e fatidicamente por cá. É da nossa condição lusitana. Somos umas máquinas: paradas. E se nos pusermos a contrariar esta coisa nacional, com manias de europeísmo, acabamos por perder a nossa graça de “tudo isto é triste, tudo isto é fado...”, passando a funcionar, em vez de fazer de conta que funcionamos - que é a nossa real vocação. Agora muito a sério: Portugal tem muito pouca coisa a sério. E pior ainda: o que é sério em Portugal, acaba sempre por ser chato. Ou bem que estamos num país em que os orçamentos de Estado se decidem com um queijo, ou bem que nos armamos em rigorosos seres que não somos, sendo obrigados a comer muito queijo para equilibrar o orçamento de Estado e a ficarmos amnésicos para esquecermos o facto de seguida. Mas pronto, eu tinha de fazer uma crónica, isso estava mais que previsto e definitivamente assente.
Fui para casa a magicar sobre que raio de coisa haveria de escrever. Vale e Azevedo a jantar couratos na Judiciária? Acorrentados a uma manada de vacas loucas? Marcianos verdes de espírito, sem pudor e com neurónios clonados de símios neuróticos, atacam o senso comum com pauladas de falsa libertinagem, convidando jarretas crónicas para tornar científica a coisa? Arrumadores, desarrumados mentalmente, matam mentes promissoras, enquanto bófias muito ocupados multam continuamente a viatura de um cronista pacato, e fica tudo arrumado? Elsa Raposo porque é que não tropecei brutalmente em ti quando andava no Liceu? Medíocres de todo o país, afogai-vos netescamente em www.jáchegademerda.pt? Porque carga de sacana de mania ou moda, há cada vez mais gajas boas atracadas a gajas boas, armadas sempre, “ambas as duas”, em couraçados de indiferença munidos de inteligência intergaláctica e inacessível? Porque é que o Senhor do Universo não me concede o jackpot de vários totolotos para comprar um monte perfeito, rodeado de minas e de armadilhas, onde poderia envelhecer tratando da adega e do harém seleccionado? Quem são as alminhas que mandam os emails da treta com mensagens de muita treta para enviar aos tretas de alguns amigos?
Caramba! Como a sucessão de todas estas imagens ainda agora ia no início, e não havendo possibilidade de conter, de modo algum, a desordem frenética em que o Mundo anda, decidi escrever acerca de nada. “Nada” é um bom tema. Sereno e budista. Dá-nos a sensação de alheamento que precisamos para estarmos de consciência tranquila, embora duma maneira equívoca - ou seja: sabemos que estamos rodeados de muita merda, temos desejos nunca realizados, gostaríamos de mudar situações por nós adentro e pelo Mundo fora, e acabamos por fazer nada. Como redenção fica-nos a fórmula : a única maneira de não errar é estar muito quieto. E tal como costuma dizer o meu amigo Mário Bacelar: “há que ser fundamentalista, mas com uma certa leveza”.

quarta-feira, abril 06, 2005


Parábola


Era uma vez um empresário que adoptou um poeta. Ora o empresário mirrava, ora o poeta evoluía. Mas também podia ser um poeta que adoptou um empresário. Ora o poeta deprimia, ora o empresário engrandecia. Era uma vez, portanto, sempre assim e nunca vice-versa.

sábado, abril 02, 2005

Conselho a um filósofo desprevenido

Não tentes esgotar toda a realidade, pois podes chegar a um ponto tragicamente distante e sem retorno possível. Acredita, a ignorância é, naturalmente, um bom porto de abrigo.

hits. online
adopt your own virtual pet!

This page is powered by Blogger. Isn't yours?